Cartaz Oficial [FSM 1934]

Cartaz – FSM 1934. Publicado originalmente por LOBO (2001, Pp. 133)
Autoria: Joaquim Lopes [iniciais e data do desenho original – 1927 – inscritas no cartaz]
Data: 1934
Edição: [ND]
Impressão: Empreza do Bolhão [Porto]
Dimensões (cm): [ND]
Proveniência/Propriedade: Empreza do Bolhão / Grupo Higifarma [exemplar conhecido acedido por via de fonte publicada]

Descrição

A “descoberta” deste exemplar de cartaz oficial da FSM, que até ao presente se mantinha desconhecido, numa lógica de produção oficial da FSM, deve-se tanto ao acaso, como à completude e adição de dados de proveniências distintas. Até ao início de 2017, tudo o que directamente relacionado com o referido exemplar se podia afirmar era, tal como MACÁRIO RIBEIRO (“Para uma leitura da iconografia da Feira [Franca] de São Mateus (Viseu)”. [no prelo]):

Do anterior e pelo cariz regionalista quase sempre presente nos primeiros elementos gráficos registas e reconhecidos para a FSM, e igualmente a propósito da intencionalidade formal frequentemente assumida, no sentido de uma propagandística “de regime”, surge como pertinente a transcrição de uma outra afirmação de Almeida Moreira, em carta de 1927 para Joaquim Lopes:

A Comissão de Turismo e Iniciativa de Viseu, de que faço parte, encarregou-me de lhe transmitir o desejo que tem que você faça um cartaz para as próximas festas da cidade de 10 a 15 de Junho [pelo Santo António]. Esse trabalho será pago. Pense nisso e faça uma coisa regional e… berrante que agrade ao indígena. (GORJÃO, S., 2013, pp. 51)

O negrito com que se faz aqui destacar parte da encomenda, é sintomático da qualificação dos elementos a produzir e do público a que se destina, sendo igualmente de molde a caracterizar a distância entre o tom discursivo oficial e institucional e um outro, mais coloquial, que se coloca como hipótese ser frequentemente ou pelo menos, não raro, repetido em similares ocasiões. É certo que não se trata da FSM, mas, considerando a entidade promotora e os intervenientes, não aparenta ser descabido que igual procedimento possa ter ocorrido quanto à FSM. Até mesmo quando se considera uma posterior encomenda para a FSM ao referido Joaquim Lopes, da mesma proveniência e com a mesma coloquialidade.
Esta marca regional, os protótipos tipificados dos géneros e dos costumes, bem como a moldura ou relevância do edificado como marca territorial, perpassam fundamentalmente, pelo que é a imagem da FSM e pela construção da sua iconografia, não podendo ou não devendo ser assumido que há uma configuração estatista e propagandística da FSM durante o Estado Novo (como frequentemente se afirma) e uma outra após a mudança de paradigma político. Quanto mais não seja porque da análise conjunta dos cartazes e outros modelos de produção, por exemplo, se observa e consubstancia, pelo avolumar de referências gráficas, o indiscriminado uso dos mesmos e frequentes modelos. Exemplo cimeiro será o de Viriato, na forma do Monumento, a Mariano Benlliure dará corpo, como se verá.
Regressando a Joaquim Lopes e ainda que não seja possível assertivamente indicar a produção do cartaz encomendado em 1927, há uma outra indicação de Almeida Moreira, em resposta à proposta de cartaz:

O projecto do cartaz, não deixa de ser interessante, mas a capucha deve acompanhar a saia, abrindo-a. Mas isto é um detalhe, um pormenor sem importância de maior para o croquis. (GORJÃO, S., 2013, pp. 52)

Não se podendo afiançar do “berrante” “que agrade ao indígena”, como solicitado, o “regional” é por outro lado notório, na escolha da capucha, uma peça de vestuário – regional de várias regiões de Portugal, apesar de tudo – capaz de congregar as atenções de uma provincialidade conhecida. É curioso, ou não deixa de o ser, que o grafismo conhecido para a FSM 1937, assuma essa premissa (partindo de autoria diversa da de Joaquim Lopes, embora ainda não reconhecida), dando continuidade à alegoria presente no grafismo da FSM atribuído (e contestado, como se afirmou) a 1931, também ali com uma capucha aberta… ou então, nos estudos e proposta de cartaz de Cruz Caldas, supra tratados.
Pode-se então e com alguma certeza configurar o sentido que vem sendo dado, de que o entendimento iconográfico deriva mais da intencionalidade e vontade do período e dos agentes directos, que de uma indicação global orientadora. Por outro lado, a caracterização do “regional”, acompanhará o processo e aceitação sistematizada de produção de um imaginário adequado ao território e, sobretudo, ao público alvo definido para a manifestação (neste caso a FSM, ainda que não exclusivamente) de que se trate particularmente.
A Festa, popular, “indígena”, fará o seu percurso e assentirá na demarcação de elementos reconhecíveis como seus, pela comunidade, ou que a comunidade permitirá serem-lhe “legados”.
Alguns anos após o que se reporta, em 1934, e ainda que se não conheça produção gráfica da FSM para esse ano (como para a quase totalidade das edições das décadas de 1930 e 1940, de resto), surge uma referência concreta a um cartaz FSM, uma vez mais pela mão de Almeida Moreira numa encomenda a Joaquim Lopes:

– Outro assunto: lembra-se que, há já muito tempo, V. fez a pedido meu e para o Turismo, dois projectos de cartazes – a tempera? – Pois bem o Turismo de então não apreciou os seus trabalhos.
Eu guardei-os e agora manifestou-se o desejo de apresentar um para cartaz da Feira Franca em Setembro. Resta agora V. dizer quanto se lhe deve pelo seu trabalho, pois que dêsde o momento que se apresenta o seu trabalho entendemos que deve ser remunerado.
Diga pois, por isso que tudo quanto fôr é ganho. (GORJÃO, S., 2013, pp. 100)

Não se pode com o disposto afirmar de uma formulação particular ou de uma descrição, como anteriormente apesar de tudo surgia em propósito, no entanto grafa-se uma autoria para o cartaz FSM 1934, confirmada pelas missivas emitidas por Almeida Moreira a 28/10/1934:

– Com relação ao pagamento do seu antigo cartaz, como tanto eu como o Mário Matos, não nos entendemos com os Snrs. da Câmara, será melhor V. mandar directamente a conta à Câmara expondo o caso, com clareza e decisão. (GORJÃO, S., 2013, pp. 103)
E confirmada com maior explicitação e valores envolvidos, a 01/11/1934:
O caso do recibo da sua “maquette” está já resolvido por mim e pelo Mário Matos, tesoureiro da Comissão de Iniciativa.
A Comissão de Iniciativa é que paga e assim já não há a menor dificuldade.
Portanto caro amigo faça o favor de fazer os recibos consoante a minuta que vai junta (…).
Recebi da Ex.mª Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu a quantia de trezentos escudos por um projecto de cartaz para as festas da Feira Franca da mesma cidade, em Setembro de 1934. (…) (GORJÃO, S., 2013, pp. 104)

Se a relação entre Joaquim Lopes e a FSM se materializa nesse 1934 e apenas – do que se conhece à data – por uma “maquette” produzida anteriormente (o que dá relevo uma vez mais não ao pendor específico de uma data, antes ao de um imaginário global), (…)

No entanto e por via da multiplicação de fontes de compra/venda directa (vulgo leilões ou sites equiparados), o surgimento da imagem do cartaz em análise, e o cruzamento de dados, pode confirmar que as especificações reportadas na troca de correspondência entre Almeida Moreira e Joaquim Lopes, se refeririam (ao que acresce a data do certame de 1934) a uma mesma e só produção, e nesse caso, originalmente referida, e publicada, por Lobo (2001, Pp.132-133), ainda que sem indicação de data de impressão e sem uma autoria identificada, para lá das iniciais (e da data da “têmpera” a que Almeida Moreira se refere) que acompanham e se imprimem no próprio cartaz:

Com a institucionalização do Estado Novo, multiplicam-se festejos, exposições, celebrações e desfiles oficiais, onde foi clara a intenção de atrair a simpatia dos portugueses através de formas mais ou menos específicas de diversão. Esta época foi também a da recuperação das festas populares tradicionais. Para publicitar uma sucessão de eventos locais, realizaram-se diversos cartazes, tais como “Visitae a Feira Franca de S. Mateus/Viseu” – JL – 1927, que apresenta a imagem de uma figura feminina em traje regional estilizado, segurando o brasão da cidade, o lettering preto inserido numa caixa rectangular branca.

O referido cartaz, foi não só publicado na obra citada, como paralelamente, numa edição especial, autónoma, de 8 cartazes, associados à publicação.

Fontes e Referências

* LOBO, Teresa – “Cartazes Publicitários – Colecção da Empreza do Bolhão”. Lisboa: Edições INAPA, 2001. Pp. 132-133.
* GORJÃO, Sérgio (Coord.) – “Cartas de Almeida Moreira a Joaquim Lopes: 1919-1939”. Viseu: Quartzo Editora, 2013.
* MACÁRIO RIBEIRO, Rui – “Para uma leitura da iconografia da Feira [Franca] de São Mateus (Viseu)”. [no prelo]

Sidebar